Tratado das Pequenas Coisas
sou tão por fora que não existe dentro em que eu esteja.


Sexta-feira, Abril 04, 2008



SAGAMUNDO
poema que inspirou a canção

Nasci careca, pelado, sem dente
Doente de fome de mundo
E sede de mar.
Toquei rabeca, toquei gado e arado
Não tem pecado ainda inventado
Que eu não fiz questão de pecar.

Varei a Terra, varri do avesso
Virei verso, confesso,
Com falso gostar.
Engoli moças macias com cachaça
Depois cuspi a carcaça
Só por degustar.

Eu fiz a guerra jorrar das gargantas
Só pra que, lá pelas tantas,
Eu próprio pudesse a paz inventar.
Ergui bandeira, fundei a nação
Perdi a noção e fiz tudo afundar.

O mundo é o que eu inventar...

Fui cabeludo, cigano do ano
Fui servo, fui amo, eu amo mudar.
Mudei de ramo, de plano, de casa,
Virei a casaca
Hoje sou da torcida rival do time do qual ajudei a criar.

Pratiquei crime, também fui sublime
Mas não causei dano, só se por engano
Tive sotaque baiano por mais de um ano
Sem nunca ter pisado por lá.

Peguei navio, tomei um desvio,
Impedi o pavio da bomba estourar.
Já fui cambista, artista, santista
Frentista num posto lá em Cuiabá.
Fui carioca, vendi tapioca
Morei numa oca numa plantação de guaraná.

O mundo é o que eu inventar...

Morri careca, pelado, sem dente
A minha dentadura mandei reciclar
E cada órgão doei pra um doente
De fome de mundo e sede de mar.

Depois do óbito, agora orbito
Vivendo aos pedaços, no vão dos espaços
Transplantado nos corpos
Que vão me levar.

Mas faço a festa
(Vai ser imperdível!)
No dia incrível
Que todos que eu sou
Me encontrar!

O mundo é só inventar...

"Inventar aumenta o mundo"
Manoel de Barros

por Liseu de Matedi | 10:44 PM Outras Palavras:
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