Quinta-feira, Setembro 13, 2007
Não é só do despejo de resíduos tóxicos e fumaça que se mata o coração de um planeta. Cada pedaço de rancor e trauma humano contamina nossa crosta. Uma palavra de ódio jogada no meio da rua vira gás venenoso e, quando inalada, transforma qualquer cidadão em perigoso. A intolerância e agressividade nas relações pessoais vão se esfarelando em migalhas que, levadas pelo vento até as fronteiras, se tornam pólvoras instáveis, deixando o ar carregado de promessas de caos.
Uma vez contaminados, só nos resta despejar nossas mágoas, frustrações, raivas, medos, cachorros loucos no quintal da sociedade. Assim sendo, não há nada mais natural que os pitbulls, largados pelos donos na esquina mais próxima, atacarem crianças indefesas. É o monstro querendo destruir o belo. Os pitbulls são a materialização dos nossos bichos interiores, nós os criamos. Nada mais justo, pois a natureza busca equilíbrio através das aberrações, através dos expurgos. Não me assustará o dia em que os pitbulls se voltarem contra os seus donos no corredor de casa ou acordarmos todos, como num conto kafkiano, transformados nessas feras, se é que isso já não aconteceu na figura dos marmanjos de orelhas murchas soltos por aí.
Portanto, não é de estranhar que jogadores caiam nos campos de futebol com seus corações parando de bater do nada, pois é esse o futuro que nos espera: sermos bichos ou cadáveres deprimidos. Corações doentes de amor desistindo de viver. E as pessoas morrendo pelos lugares, pelos caminhos. Corpos tombados na saída das escadas rolantes e pessoas pulando o entrave com naturalidade, corpos despejados dentro das latas de lixo, boiando nas praias, empilhados nos bancos das praças, com a cara enfiada no prato no restaurante, inclinados nos assentos das arquibancadas vazias, sentados nos sofás diante das televisões e dos computadores.
O mundo está muito doente, os hospitais estão fechados e o tempo do afeto acabou. Só nos resta torcer para que o coração do planeta seja forte e que muito em breve encontre um grande amor.
por Liseu de Matedi |
7:11 PM
Outras Palavras:
Ela é a minha rua sem saída
Não por impedir o ir e vir
Ou por não dar numa Avenida
Mas porque dela não quero mais sair
Ela sabe se divertir
E tem gosto em se perverter
Talvez seja só pra me ferir
Mas é claro que vou me render
Ela é cheia de esconderijos
Onde lhes recheiam membros rijos
Mais achada que perdida
Mais furada que fodida
Ela tem o corpo marcado
Por amantes e pelas rixas
É dada ao pecado
Aos boêmios, aos mendigos e às bichas
Ela atrai e ela assusta
Mas eu volto mesmo assim
Porque eu gosto da Augusta
E a Augusta gosta de mim
por Liseu de Matedi |
7:10 PM
Outras Palavras:
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