Sexta-feira, Agosto 31, 2007
Uma senhorinha faleceu ontem no seu leito de vida, deixando filhas e netas. Em volta da cama todas murmuravam prantos como se tecessem juntas um véu mortuário. Só uma das filhas guardava um sorriso atrás do siso. Uma neta notou, perguntou, e ouviu a resposta ao pé do ouvido.
- Sua vó morreu como todas nós gostaríamos de morrer. Não de dor, nem de doença. Morreu de sono.
Morrer pode ser bonito. Pode até nem ser morte. É o que chamam por aí de rito de passagem. Talvez um dia, num futuro bom, os mundos se toquem, se vejam, se ouçam e se cheirem. E a gente possa dizer:
- Vou fazer um intercâmbio no lado de lá.
- Faz um favor? Lembra ao seu tataravô que pra semana preciso falar com ele sobre aquele sarau de música que estamos organizando.
Dizem que a senhorinha que faleceu ontem, nos últimos tempos já conversava com sua mãe, assim, de bater boca. Imagina só: populações terráqueas inteiras com essa capacidade de se comunicar tranqüilamente com o além como se fosse uma Internet orgânica? Já vejo detetives desencarnados passando relatórios isentos de burocracias e CPIs:
- Sabe aquele político, aquele que num discurso emocionado arrancou lágrimas da platéia? Roubou mesmo. Caso encerrado.
Claro que nem tudo será perfeito. Haverá tribunais conjuntos julgando espíritos pelos crimes de espiar banho de mulher casada, ou de delatar pra bandido local o sigilo bancário de empresário e doutor. E as embaixadas do etéreo reclamarão aos governos a entrada dos suicidas em suas fronteiras de modo ilegal.
Poderemos também aposentar algumas expressões medonhas como: estou morrendo!, para: estou de mudança...
- Ah, vai mudar de casa? De bairro? De cidade? De país? De planeta?
- Não, de plano físico.
Dizer: vou me mudar, não vai significar mais: vou pra outro lugar. Mas sim: vou me transformar, vou mudar do corpo de carne e osso para o corpo de ectoplasma e sândalo. Ou ectoplasma e música. Depende do gosto de cada um.
Aliás, acho mesmo que música pode ser o tipo mais elevado de corpo. O Shakespeare morre e volta como uma Bachiana. Picasso bate as botas e volta como uma obra prima do Tom Jobim. Ser-música é a maneira mais perfeita de alguém alcançar a vida eterna. E não estou falando poeticamente! Exijo considerações científicas!
Tem gente que não morre; desencanta. Tem gente que vira purpurina. Eu, quando me mudar de vez daqui, quero virar canção, se possível uma inédita deixada por mim no leito final. Uma canção bem brasileira que caia na boca do povo e que seja cantada para sempre, sujeita a versões.
por Liseu de Matedi |
7:30 PM
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