Domingo, Junho 03, 2007
Só quem tem sangue nas veias é que pode botar pra ferver. E ferver é muito melhor que ser apático. Prefiro um menino ardendo em febre a um menino anêmico. Sem contar que quando se está com anemia, eles nos empurram umas comidas horríveis, que ou você vomita ou se cura de vez. E pedir com jeitinho não funciona. A gente faz beicinho, bate o pé, tem um chilique. Só mesmo umas boas palmadas na bunda pra resolver o debate. Eis o poder do tabefe: não só comemos, como a doença some rapidinho. Ah... Que saudades das surras de mamãe. Aliás, foi inspirado no ofício das mães que o Che Guevara inventou essa: "Hay de endurecer pero sem perder la ternura". Tem coisa mais amorosa que uma palmada materna?
Por essas e outras que sou a favor da violência. Não tanto por ética ou índole, mas porque senti na pele e como dói! E admito que em certas ocasiões talvez nada seja mais eficiente que um bom safanão. Ou mesmo uma violência verbal. Tem gente que é tão ordinária, gente tão mesquinha e tacanha, e pior, gente malvada, que não adianta apelar pro diálogo cordial. Não tem gramática, pronome, advérbio, frase de efeito, Santo ou Orixá que resolva a questão. Apelar pra consciência do cidadão? Que consciência? Você tenta falar dos valores da família, bota a mãe dele no meio da discussão e ele acaba botando no meio da sua.
O jeito é partir pra briga. E uma boa briga pode lavar a alma. Seja pela honra manchada do seu time, seja por uma ideologia, seja pela convicção de uma opinião; brigar pode ser bom. Pode trazer de volta o ímpeto e a coragem, o gosto pelo desafio, a vontade de auto-superação, de provar que somos vencedores. O ato de nascer já é a primeira briga que perdemos, contra o médico que nos arranca a fórceps da boa vida. E não pára por aí: a gente perde o peito da mãe, perde os primeiros dentes (é por isso que numa briga o que todo mundo quer é dente por dente... quem não se gaba de perder uns e ainda deixar o outro banguela?), perde o primeiro beijo, perde o lugar na dança das cadeiras quando tiram a música, perde a prova, perde a cabeça, perde a chance, perde o gol, perde o tempo, perde o trabalho, perde alguém, perde cabelo, ganha barriga, perde e perde e perde de novo. A gente briga pra perder. Mas se a gente vive pra morrer, qual é o problema?
Brigar também desperta o nosso eu primitivo, aquele que lutava com pedra e tacape pela melhor caverna, que precisava trazer sua fêmea arrastada pelos cabelos. Aliás, era uma combinação perfeita: no macho faltava o poder de argumentação, na fêmea sobrava a vontade de apanhar, pronto, o amor estava perfeito. Hoje o homem continua o mesmo, tendo que comprar até livro de xaveco pra aprender a ter lábia. Já a mulher, salvo exceções, não é mais chegada a maus tratos e já sabe sentir prazer sem nossa companhia ou na companhia de outras mulheres ou na companhia de alguns objetos anatômicos. Resumindo, sabe a sensação quando ninguém te beija? Ou seja: cerveja. Vai beber, meu amigo. Vai beber porque é o que resta, as mulheres já desistiram de nós, os mesmos primatas de sempre.
Porém, excluindo o caso acima (exceto quando elas mesmas reclamam que falta no homem certa dose de cafajestismo, aí então, colega, solte o animal que existe em você), devemos encarar, quando necessário, uma boa briga. Ora, andam recriminando a atitude de uns universitários que estão fazendo greve, ocupando reitorias, campus, e causando baderna e depredação de patrimônio. Mas também ninguém se decide! Ou reclamam que os jovens são alienados e apáticos, que antigamente não era assim, ou que são um bando de vândalos. Vale lembrar que nos tempos da ditadura os jovens faziam passeatas, piquetes e causavam o mesmo cenário de confrontação. Isso quando não eram ataques armados, guerrilhas. E hoje é tudo lembrado com certo orgulho patriótico. Qual a diferença? Antes era preciso essa medida extrema porque o inimigo era pior? Acho que não. Pois se antes o vilão era o tipo clássico, daqueles que anunciava o plano maligno em voz alta e contava pro mocinho preso tudo que tinha em mente pra tomar o mundo, hoje o vilão tem discurso democrático, tem diploma de educador, de sociólogo, tem Ong, até mãe ele tem, e está por aí, presidindo instituições de poder, governando nosso país.
Não estou fazendo apologia à violência. Longe de mim. Já senti na pele e como dói! Mas com políticos que se esbofeteiam em pleno congresso, com policiais corruptos que matam e matam pior que muito bandido, com balas perdidas que saem livres por aí, impunes, com esses exemplos exemplares, com que argumento e mérito podem julgar a atitude desses estudantes? E pergunto mais: com tudo isso, nesse país onde um tapinha não dói, ainda seria necessário de minha parte fazer alguma apologia à violência?
Brigar talvez não seja a atitude mais nobre. Mas pra quem está na inércia, ser nobre não é o passo mais próximo. A própria natureza não pula estágios: pois calmaria antecede tempestade e a sucede depois. Acredito que a gente ainda chega lá, nesse lugar de paz onde o sol brilha pra todos e o céu jorra leite e mel. Mas antes disso é preciso curar a anemia, é preciso arder em febre e ferver o sangue nas veias. E nada melhor do que a lembrança da mãe, com o chinelo na mão num ato de quem espanca, mas espanca doce, pra botar muito marmanjo pra correr.
por Liseu de Matedi |
12:32 AM
Outras Palavras:
O funcionário público trabalha a vida inteira, paga sua fatia de impostos e espera que no inverno do tempo da vida, receba sua justa aposentadoria. Mas a previdência social e as resoluções do presidente, no momento em que esse homem precisaria da justa retribuição do seu Estado, depois de ter sido um pronto contribuinte e colaborador da nação, recebe um parco salário que mal lhe garante o pão. O idoso, ex-útil, passa ser um estorvo pro país e deixa de receber a merecida recompensa que nada mais é que seu próprio dinheiro suado, investido ao longo dos anos.
Uma senhora que sobrevivia com um aparelho que bombeava oxigênio e só funcionava na eletricidade, após implorar que não cortassem a luz, mesmo com seus atrasos no pagamento, morre porque lhe faltou o ar.
Qualquer dia será nos cobrado até o oxigênio e ai de nós se não pagarmos nossas contas em dia.
por Liseu de Matedi |
12:25 AM
Outras Palavras:
Acho corajoso quem resolve ter filhos nos dias de hoje. Ainda mais quando a criança vem duma gravidez indesejada ou até inesperada. Falo disso porque sinceramente não saberia educar meu rebento. Já não sei mais o que é certo ou errado nessa sociedade cheia de leis mutiladas, leis pela metade. Leis que parecem truque de mágico: o chapéu sempre tem um fundo falso.
Em Portugal, o presidente não fez uso do veto e pelo voto foi permitido o aborto até a décima semana de gravidez. Esse assunto sempre dá o que falar.
No noticiário da noite, assisti uma reportagem que, com uma câmera escondida, denunciou uma clínica de abortos no sul do país. A clínica se intitulava "Planejamento Familiar" e as imagens mostram uma consulta onde o casal de jornalistas, que se passa por pacientes, é atendido por uma psiquiatra que avalia o caso. Num dado momento ela diz que nem família, nem amigos têm o direito de julgar a mulher que toma essa decisão e que cada pessoa sabe o que é melhor pra si. Depois surge outra matéria, dessa vez sem câmera escondida: é uma entrevista com a dona da clínica. E ela não se abala, não se mostra acuada ou culpada. Diz que as meninas por vários motivos chegam decididas a abortar. Que se não fizerem ali, vão procurar qualquer lugar sem a devida precaução e assistência médica adequada. O repórter então lembra que aborto é crime e a mulher fala calmamente:
- Sim. Mas entenda. Não é deixando na clandestinidade que vamos impedi-las de continuar fazendo isso.
Ainda pra ilustrar esse assunto, vi um filme onde uma mulher pacata e idônea, boa mãe e esposa, que toda manhã sai pra cuidar de pessoas doentes em seus domicílios, é condenada como criminosa por fazer abortos em meados do século, na Inglaterra. Ela não cobra nada pelo serviço e faz tudo com muito cuidado e limpeza, sem derramar uma gota de sangue. Com isso as meninas permanecem socialmente aceitas e ainda servíveis pra casar.
Quem deveria ser julgada e condenada? A médica que fez o aborto? Por que não a mãe desnaturada? A mãe que, irresponsável e imatura, em vários casos escolheu essa saída por mais de uma vez? Por que não o pai imoral? Que, em vários outros casos, forçou a moça, agiu com requintes de crueldade, usando e abusando da confiança da parceira? Muitos homens pacientemente namoram meninas novas com um único interesse.
Cada pessoa não deveria ter a liberdade de decidir o que é melhor pra si? É proibido fumar? É proibido beber álcool? Não são drogas mortais, o cigarro e o álcool? E as pessoas não fazem mal a si com esses vícios? Não morrem de câncer, de cirrose? E não fazem tudo isso em liberdade de escolha?
E a eutanásia? Quem desliga o aparelho ou aplica a injeção é culpado? Não? Porque foi o paciente que pediu? Em que estado de consciência e racionalidade ele pediu? Será que um feto sensato, nesse mundo doente, não pediria o mesmo?
É esse o caso? O feto não tem poder de escolha? Tem quem diga que o feto já é um ser humano. Religiosos dizem que já tem alma. Outros dizem que não. Que em certas estados da gravidez não passa de uma combinação química.
Até certa idade, a criança não é responsabilidade da mãe? Quem responde por ela? Pelo menor infrator, não são os pais que assumem a culpa? Ora, se o feto, dentro dessa cronologia, vem antes da fase criança, não é a mãe então que responde pelo feto, já que ele inda não pode decidir por si?
É justo tirar o filho obeso de uma mãe? A criança, nesse caso, pode falar por si? Quem decide que o governo tem essa autoridade? E quem decide que uma mãe carregando um feto não tem também?
É assassinato o que o espermatozóide escolhido faz com os outros espermatozóides que não conseguem chegar ao óvulo? Esse espermatozóide matou futuros seres humanos? Deve ser julgado e condenado por isso?
Com que julgamento moral pode a humanidade condenar o aborto como assassinato, se ela própria vem se encarregando de matar milhões em guerras, execuções, intolerâncias e descasos com a vida humana?
Se o feto pedisse pra não nascer, nesse caso, não seria crime?
Só se se provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Feto!
E com firma reconhecida!
por Liseu de Matedi |
12:20 AM
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