Sábado, Abril 14, 2007
Nunca acreditei na pré-história que os livros guardam. Muito menos na que os homens contam. O que, aliás, é a mesma coisa. Livros são gaiolas de palavras que alguém um dia notou e outro alguém anotou.
Lembro muito bem, na infância, as missas do colégio. O padre gordo e suado descrevendo as delícias do Éden, as tentações da maçã. Mas tudo que eu imaginava eram as delícias da Eva, nuazinha. Achava estranhíssimo essa idéia de dois seres únicos, civilizados e puros, colhendo frutas num pomar celestial. Pra mim, eles seriam mais como dois bichos, sujos e cabeludos, se cheirando, se lambendo, se querendo.
Mais tarde, lendo artigos reveladores em revistas de ciência, também não concordei com aquela visão, desenvolvida por homens que estudavam fósseis, restos de ossos. Ora, se acaso no futuro encontrassem o esqueleto do meu fêmur, ou mesmo do meu crânio, saberiam dizer os cientistas o modo como eu sentia? Se minha tristeza era mais ou era menos profunda? Saberiam dizer se, sendo nativo de câncer, era eu mais apegado à memória das pessoas do que a elas próprias?
Os primatas, na minha crença, também não chegam a ser os macacos que pregam por aí. Tomemos o exemplo do meu cunhado. Praticamente um Ogro que bebe e come, mas que sempre chora no final do "Rei Leão". Ao meu ver, os primatas tinham sim, os instintos brotando na epiderme, mas vejo perfeitamente uma boa fêmea prenha catando piolhos na cabeça do marido, enquanto esse mesmo tira bichos-de-pé com a boca após um dia gratificante de caçada. Vejo-os ainda batucando algum som em tambores feitos de crânios, tocando lira em cordas de tripa, urrando alto alguma nota que bem podia ser um dó menor.
Enfim. Nem tanto à Bíblia, nem tanto ao Darwin. Nem tanto aos dogmas, nem tanto às teorias sintéticas. O homem não é sintético. Se fôssemos uma raça imortal, descendentes de uma linhagem de anjos, poderíamos ter avaliado o surgimento dos hominídeos, estudando seu comportamento desde as cavernas. Só desse modo teríamos autoridade pra dizer o que é ou não fato. Mas como fazê-lo? Se nós é que estávamos lá? Como dizer dos primatas, se os primatas éramos nós?
Pode ser que não diferenciemos em nada das outras espécies em nossa origem. Pode ser que sejamos filhos pródigos do macaco. Pode até ser que tenhamos um parentesco distante com as mulas. Mas pode ser também que certos aspectos, mesmo que num remoto tempo, imperceptíveis, sejam inerentes e intransferíveis à nossa raça. Como a capacidade de ter podido sempre imaginar. Imaginar o que há e o que não há.
Do mais, só quem sabe é Deus. E até Deus, ele mesmo, é uma obra aberta, que ainda não terminamos de imaginar.
por Liseu de Matedi |
4:39 PM
Outras Palavras:
Quer saber porque acho que ele é um cara de sorte? Vamos caminhando que te explico. Veja bem, ele foi integrante do maior grupo de rock de todos os tempos. Podia parar por aí. Mas nesse caso, os outros membros seriam tão sortudos quanto. Mas espera, me deixa terminar. Ele era o baterista da banda. Você percebe o que é ser o baterista duma banda de rock'n roll? Amigo, acredite-me. O baterista é o cara. Pra meninas histéricas e pra imprensa em geral, o vocalista pode até se passar de importante. Mas pra quem entende de música, pra quem é capaz de enxergar a alma que vai dentro do corpo e até pra própria banda, o baterista que é o cara. Se o vocalista é o líder do grupo, o baterista é o líder do som. O baterista é um rebelde por princípio. Só o fato de tocar com braços, pernas, tudo junto num tempo que aparentemente se desencontra, cada parte pulsando uma música dentro da própria música, já demonstra autonomia. O dono das baquetas está o tempo inteiro compondo sua própria melodia, feita de notas surdas, extensões do ritmo do coração. Outra coisa extraordinária: os músicos, pra retirar som dos seus instrumentos, precisam ter jeito, acarinhar as cordas, seduzir com carícias até extrair o som. O baterista não. Com pancadas de amor na cara do tambor, ele ordena e cativa. Um tapinha não dói. E o melhor de tudo não falei ainda. Ele fica lá atrás. Vê tudo, percebe tudo. Um voyeur de luxo. O melhor camarote num show é o dele. Apesar de ser o coração da banda e o responsável em manter todas as coisas invisíveis unidas, ele não aparece. Não está na cena do crime. Não é culpado de nada. Nunca esteve lá. É igual à melodia e ao ar. Ele está na categoria das coisas que não se vêem, apenas se acreditam. E pode passar anônimo. Andar por aí pelos lugares feito a gente. Ter o melhor dos dois mundos. Discretamente, olha ali atrás, tem umas prostitutas, perto do ponto de ônibus, sentadas. Ouviu o que elas falaram quando a gente passou? Tem tudo haver com isso que estou falando! Vou explicar. A gente está aqui, agora, em plena Augusta, falando da importância desse cara! Enquanto isso, aquelas mulheres ouviram nosso papo e uma delas disse: "Quem é esse Ringo Star?".
por Liseu de Matedi |
4:39 PM
Outras Palavras:
"Chuva forte, telhado é sorte."
Dora B.
por Liseu de Matedi |
4:38 PM
Outras Palavras:
"Nenhum homem é uma ilha, que se basta a si mesma. Somos parte de um continente; se um simples pedaço de terra é levado pelo mar, a Europa inteira fica menor. A morte de cada ser humano me diminui, porque sou parte da humanidade. Portanto, não me perguntem por quem os sinos dobram: eles dobram por ti."
John Donne
por Liseu de Matedi |
4:36 PM
Outras Palavras:
Dorme a poesia
Morre de inanição
Esquecida pela nação
Numa esquina vazia
E de boca no chão
É tanta apatia
É uma baixaria
Que não tem condição
Ninguém se entende
É tal a falta de comunicação
Que a poesia vende
Seu verso sem dente
Na mesma esquina que mataram
Outro qualquer cidadão.
por Liseu de Matedi |
4:36 PM
Outras Palavras:
UM CONTO DE NATAL
- Foi mesmo um bom menino?
Padilha, obstinado, implora que sim, igual cão adestrado, igual foca querendo peixe.
- Compareceu às necessidades de sua mulher, sem deixar de com isso, desejar sua cunhada, as amigas de sua filha e qualquer uma que passasse no seu caminho?
Padilha, com ar grave de bacharel, acena que sim, inflamado de orgulho.
- Foi um chefe exemplar com seus funcionários, atrasando seus pagamentos e negando-lhes os direitos necessários? Foi um empresário arguto, passando notas frias, intercambiando transações fajutas e fraudulentas e sonegando impostos para bem do patrimônio particular?
Padilha, solene como na cerimônia de hastear bandeira, como quem ouve o próprio hino do país, só faltou bater continência de obediência.
- Contribuiu com as causas sociais e ecológicas, atirando copos e latas pela janela do carro, fechando os vidros aos meninos malabaristas no sinal, ligando o ar condicionado até pra ir ao banheiro, comprando de madeireiras clandestinas no Amazônia e aprovando desmatamentos para construção de shopping-center em reservas florestais? Fundando ONGs de fachada para lavar dinheiro público e embolsar para benefício pessoal?
Padilha, pulando frevo, soltando confetes, dedinhos pra cima (quando não se sabe sambar), como se estivesse num carnaval de Olinda, canta que sim, sim!
- Enfim, deu falsos testemunhos ideológicos, parou em fila dupla em plena hora do rush, maldisse a vida alheia, perjurou, jurou e mentiu, disse até o fim que não viu nem sabia de nada? Deixou de catar as fezes do seu cachorro na calçada? E o mais importante: furou sinal no amarelo?
Padilha, abrindo os braços como quem interpreta a derradeira ópera, cheio de comoção embargada, só consegue acenar com a cabeça, sôfrego e pleno, que sim, em paz consigo, que sim, uma vida a ser homenageada, sim.
- Bom menino. Comportou-se o ano todo. E merece seu presente. Feliz Natal. Ho ho ho.
E o bom velhinho, aliviando as costas, joga o saco inteiro na sala de Padilha. Diz a ele que depois dividisse tudo em sacolas menores, malas compactas, meias penduradas na lareira e até nas cuecas de algodão, tudo pra não levantar suspeita. Depois disso pegou suas renas e trenó e voltou voando pro pólo norte, no distrito federal.
por Liseu de Matedi |
4:36 PM
Outras Palavras:
Essa poesia barata
é mulata
escrevi na vala
acendi uma vela
e cuspi nela.
A tinta pra letra
é a graxa preta
pútrida do esgoto.
Essa poesia fiz num desgosto
e tem gosto
de cachaça, de carcaça de jasmim,
ex-flores.
Nessa pátria
de tanta mamata
ergo essa poesia barata
que é meu corpo doloso
furioso
minha carne exposta
decomposta
fundida e mal paga.
Cagada no chão
ressecada
virou casulo
virou borrão.
E o povo todo nulo
enojado
fulo
com azia
presencia
a aparição cascuda, abusada,
da barata
que é a errata,
da poesia defecada,
metamorfoseada.
Nessa pátria
de tanta mamata
ergo a poesia,
Barata,
que todo mundo pisa,
mas não mata.
por Liseu de Matedi |
4:35 PM
Outras Palavras:
Meu coração está deserto
Mas nem por isso desconheço o mar
Pois meu deserto está cheio
De desejos
E miragens
De lá.
Pois se o mar, cheio de si
Não tem mais lugar que ocupar
Meu deserto, cheio de vazio
Tem lugar pro deserto
E tem lugar para o mar.
Abro os braços
E bebo do Sol.
A cor amarela
Inunda-me inteiro
E meus pés vão despejando
Mágoas.
No meu gesto puro
Outros homens se inspirarão
E seremos uma multidão negra
Vertendo baldes de luz.
A pele escura
Iluminando-se de dentro
Deixará vazar dos membros
Veias afluentes
Braços de rio.
Meu corpo dissolvido
Desaguado viverá.
Apenas na chegada de outras naus
- trazendo navegadores
E sonhos de liberdade -
Que terei meu corpo restaurado
Porém agora todo feito de sal.
E receberei a festejar
De braços abertos
Outros homens desertos
Mas cheios de mar...
por Liseu de Matedi |
4:35 PM
Outras Palavras:
A cidade
Foi tomada
Por uma mocidade
Miscigenada.
O jornal
Especulava:
"Invasão espacial!"
E o boato circulava:
Esses seres
São verdes?
E se eles
São nerds?
Ou pior
Se são inertes
Ao ópio
Da Internet?
Um morador
Ontem na TV
Descreveu ao locutor
Como é o E.T.:
Tem pele vermelha
Usa óculos de grau
Mora numa aldeia
Usa aparelho bucal
Veste preto
Tem piercing no rosto
Tatuagem de esqueleto
Pinta os olhos de roxo
Cabelo loiro rastafari
Só anda de conversível
Com um chapéu de safári
É de uma simpatia incrível
Com guarda roupa de skatista
Dança o baile de funkeiro
Já com traje de surfista
Mostra seu lado pagodeiro
Tira bota de vaqueiro
Pula carnaval com povo
É tanto macumbeiro
Como cristão fervoroso
Seu Tio Samuel é latino
Tem meio irmão em Israel
Também tem primo palestino
Os pais os têm no céu.
Numa língua indígena
Que, sem entender, entendi
Perguntou como mudar essa indigna
Nação? Não respondi
Então o E.T. teceu o tema, balançando a antena:
- Pra transformar uma juventude alienada
Só uma juventude alienígena
Aliada.
por Liseu de Matedi |
4:34 PM
Outras Palavras:
Estrelinhas Entrelinhas
Não sou o melhor escritor do mundo
Mas o escritor melhor do mundo
Não é do mundo o melhor escritor
Porque ele não sou eu e ele não sou.
Nem sou o maior poeta do mundo
Porém o poeta maior do mundo
Não é o maior do mundo poeta
Pois nele a mim falta.
Nunca nunca serei o artista mais perfeito,
O mais inspirado e completo,
Porque toneladas de obras primas
Nascem por mãos que não minhas...
p.s.: Fico comovido com tanta beleza
que não me dá trela.
Ninguém será nunca o artista
Mais completo e também sem fim.
Pois tudo que está por aí incompleto
Só se completa em mim.
p.s.: A beleza me tira pra dançar
Nas entrelinhas das estrelas.
por Liseu de Matedi |
4:34 PM
Outras Palavras:
Sucateiro
Só é homem inteiro
Com seus cacarecos
E nunca dá valor ao cão
Que enxota e chuta e nega pão
Até que tem um treco
O peito que nem reco reco
E só o que traz socorro ao fuleiro
É o latido alarido do fiel companheiro
Agora quem lhe pergunta se é o dono do cão
Primeiro diz que não, e assunta:
- Ele não está comigo;
É apenas um grande amigo.
por Liseu de Matedi |
4:32 PM
Outras Palavras:
"Abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos".
Friedrich Nietzsche
Dar-te-ei uma primavera
Para sumires com quem eu era
Acordarás rodeada da beleza
Contida nas tranças da leveza
No teu coração infesto de luz
Não haverá máculas nem pus
Teu corpo outra vez intocado
Não recordará que foi por mim beijado
Estabelece pra ti novamente
A paz infinita do pensamento sem mente
A saúde inócua da vida inocente
Que não carrega nada a não ser o presente
Quero que me esqueças bem fundo
Apaga que existi no teu mundo
Desaparece comigo da tua lembrança
Encontra outro par pra te levar nessa dança.
poema A Paz Infinita de Liseu de Matedi
"Feliz é o destino da inocente vestal!
Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida.
Brilho eterno de uma mente sem lembrança!
Toda prece é ouvida, toda graça é alcançada!"
do filme Brilho eterno de uma mente sem lembrança,
trecho do poema "Eloisa to Abelard" de Alexander Pope.
por Liseu de Matedi |
4:31 PM
Outras Palavras:
O homem penitente
Traz um presente:
Uma caixinha de música
E isso já é comovente.
Ele dá corda
Acomoda sobre a cômoda
E a mulher acorda
Com a bailarina que roda.
Ele a tira pra dançar
E enquanto a valsa tocar
Poesias vai recitar
Elogios vai desfilar
Sua amada vai beijar
No colo vai carregar
E a ela vai brindar
Até de comer vai dar.
Mas quando a corda ralentar
Monótona
Esse homem vai mudar
O homem diferente
Um tipo ausente
Que mesmo estando junto
Perdeu até o assunto.
Vai ficar mudo
Bruto, parado
Aborrecido
Do lado separado.
E suas coisas vai juntar
Nem no rosto vai olhar
Ela sem acreditar
Ele sem o que falar
Vai pegar então a mala
Ela com os biscoitos da fornada
Aos seus pés vai jogar-se na sala
Implorando, tremendo, acabada.
E enfim na última nota
Que a caixinha der
Ele vai caminhar até a porta
E abandonar de vez essa mulher.
por Liseu de Matedi |
4:31 PM
Outras Palavras:
O meu amor é ingênuo
É genuíno
É parte mesmo do meu organismo
Não é silogismo
E por isso é sincero
Como sístole e diástole são sinceras
Como um espasmo
Ou uma dor de fome.
A minha música sente dor
Porque ela não é um produto
Da razão
Ou mesmo da intuição
Ela é elemento palpável
Visceral e notável
Como uma costela
Uma coluna
Nascida estranha
Das minhas entranhas.
Meu amor
Minha música
Não têm premissa
Nem conclusão
São uníssonas
Universo particular
Dentro do som
Sem contorno
Silencioso
Sem transtorno
Que não se fatia
Que é delicado
E se chama Encantado
Que segue lado a lado
A lado a lado
Sem borda de fim e começo
Sem trecho
Sem veio
Sem enleio
Sendo somente
Meio.
por Liseu de Matedi |
4:31 PM
Outras Palavras:
...
Não são versos de lamento
Não sou tão vaidoso...
É que nesse momento
Me sinto duvidoso...
Mas estou atento:
A cada idéia que, isento,
No poema comento,
A cada verso que invento
Sou de novo gozo:
Sou um vitorioso.
por Liseu de Matedi |
4:27 PM
Outras Palavras:
Café que é a fé
Não quero ser poeta de papel
Quero ser poeta de grão
Poeta de colheita
Poeta de mãos enterradas
Que plantam
No seu ventre de mulher
O adubo da terra natal.
Quero ser poesia na sua vida
Poesia saltando pros seus olhos
Poesia feita de café
Poesia moída na sua mesa
Na sua coxa
Na sua cozinha.
Vidinhaminha
Purifica meus grãos
Separa aqueles que maus
Moí-me
Ama-me
Aroma-me.
Põe-me na saca
Coa-me
Ecoa-me
No bule.
Verta-me
Engula-me
Converta-me
Na sua goela.
De noite
Sêmen
De manhã
Café.
Dentro de ti
Semente
Que é a fé
De que foi plantado
Na gente
O presente do amor!
por Liseu de Matedi |
4:27 PM
Outras Palavras:
queria uma palavra
que quando escrita
exalasse cheiro
textura e sabor
que tivesse contida nela
toda a biografia
do sentimento
toda memória impressa...
uma grafia
que desfiada, o contorno
fosse laço de flores e adorno
queria uma palavra
que guardasse
tua saliva num frasco
que quando mexida
não por borracha
mas por garfo
virasse carne
uma lasca da sua carne
pra me nutrir
queria uma palavra
que quando escrita
fosse um retrato seu.
por Liseu de Matedi |
4:26 PM
Outras Palavras:
Quando olho pra Lua
Penso nos namorados
Que adoram ter sua luz branca
Como holofote na ribalta
Iluminando o solo dos seus beijos.
Sou romântica
Sou semântica
Gosto do corpo do meu bem
E tenho ciúme dele.
É meu único abrigo,
Por ele eu brigo,
Meu fiel amigo.
O corpo dele me é tão valoroso
Valioso
Pois depois de muito bater asas
No pouso
Descubro nele meu repouso
Minha casa...
Quando olho de novo pra Lua
Já vejo astronautas
Que usam seu solo cheio de crateras
Para pernoite
Para enfim seguir viagem a outros planetas.
Desejo viajar com os astros
E ser a estrela mais popular
No espetáculo do Universo
Sim. Miss
Universo
Sou quântica
Cética, científica
E quero beijar um extraterrestre.
Quero liberdade até desse corpo
Que é pequeno pra me conter
Minha vontade é voar
Romper
Rasgar essa casca
Que é minha casa
Boiar no ar
E bater asas!
por Liseu de Matedi |
4:26 PM
Outras Palavras:
Existe no seu perfil alguma surpresa doce
Como se o lado oculto fosse
Aquilo que desejo, mas não vejo
E que, cheio de pudor,
Se guardasse pro beijo.
por Liseu de Matedi |
4:25 PM
Outras Palavras:
"Meu humor é do tamanho da minha pílula anticoncepcional:
certos pensamentos não se concebem."
Dora B.
por Liseu de Matedi |
4:25 PM
Outras Palavras:
A beleza da tua forma de fruta
Molhada pelo sabor do sal
Enamora os astros e os condimentos
A comida ferve, legumes doces
A delícia é temperada e amorosa.
Tua aparição é fornalha às batatas
Doura as batatas, torra o grão
Teus suspiros acalmam a pimenta
Esfria a refeição fervendo na mesa
Teu perfume é canela, é orégão, é manjericão
É a pura especiaria exótica
O olor que desprendem teus poros
É o cheiro grato do alecrim, do agrião, da hortelã.
Tu és a comida celestial
O alimento saboroso e nutritivo
Teu corpo é a delícia perfeita da natureza
É a massa que purifica as línguas.
Tudo na tua matéria é vida
É a eterna fonte da beleza que alimenta
Que sustenta os seres em crescimento.
Tu és a essência da cozinha
Tu és o fermento do mundo.
por Liseu de Matedi |
4:25 PM
Outras Palavras:
Com distinto trato
No tato
Com faro
Raro
Paro
No instinto
Num instante
Ao seu portão
Com instinto faro
Raro
Como um tato
Paro
Num instante
Trato distinto:
Sou teu chão
Com tinto claro
Caro
Preparo
Prato.
Destino nato
Dos lábios no ato
De repartir refeição
À dama
Amada
O beijo selado;
No alimento saboreado
O encontro de tudo:
A dama, a fome, o mundo
No fundo do vagabundo.
por Liseu de Matedi |
4:21 PM
Outras Palavras:
- Junto, junto!
Estalo os dedos
Estalo os lábios
Chamando o cãozinho
Falo que tenho osso
Falo que tenho sopa de letrinhas
Encontro o bichinho tremendo
Sem vocabulário, primitivo
Ele come a grama
Tento gramar
Gramático
Mas sei que perdi a linguagem
Para mantê-lo de estimação
Ele não volta não
Nem com ração
Nem com razão
Nem coração
Nem com oração subordinada
Tudo por birra
Porque foi trocado...
Troquei meu bichinho por nova paixão
E isso ele não admite: traição!
por Liseu de Matedi |
4:19 PM
Outras Palavras:
A Dor
Pegaram no meu pé
Me viraram de ponta cabeça
Me bateram até
Abrir o berreiro, chorar a beça!
Desde aí, pois é,
Nunca mais parou
Sabe como é
Esse meu gosto pela dor
Até hoje é assim
Quando vou escolher
Uma mulher pra mim
Pergunto: qual melhor vai me fazer sofrer?
Viva à dor
A viva dor
Que não pára
Que não sara
Roda a dor
A dor roda
E se acorda
Dou mais corda
E ao meu ver
Eu tenho sorte
Por achar (na dor) prazer
Grande coisa é a morte...
por Liseu de Matedi |
4:17 PM
Outras Palavras:
Homenagem ao dia 3 de junho
Poema de Ninar Materno
Vou ficar a noite inteira
Bem aqui de sentinela
Montar guarda à beira
Da bela, bela, bela
Usarei a mamadeira
Que trago comigo no peito
Mesmo quando me canso e deito
Não me deito por inteira...
...Mesmo que queira;
Algo de mim ainda vela
Num eco de melodia prazenteira
O sono da donzela
Vou calar o mundo todo
Para que reine um único grito
Que ironia, pois é desse modo
Que entendo o infinito
E se ansiosa me irrito
Por inexperiência
Acho que é ainda mais bonito
O valor da paciência
Vou ouvir atenta o muito choro
E ir murmurando o nome dela
Vai passar, vai passar, ouve o coro:
Gabriela, Gabriela, Gabriela...
por Liseu de Matedi |
4:13 PM
Outras Palavras:
NINA
Levanta tarde
Perambula no corredor
O corpo arde
Adoecendo de amor
Não tem ninguém
Pra sentar à mesa
Pra comer de vela acesa
Pra secar a louça também
Entra no elevador
Torcendo que em algum andar
Entre aquele senhor
E depois o alarme pode até tocar
E a máquina pode parar
E o coração pode voltar a bater
E o mundo pode continuar
Que aqui ninguém vai descer
Com o tempo, lá fora,
As pessoas começando envelhecer
Mas na cabine, essa hora,
Estamos vendo alguma coisa acontecer
Até que venha o indesejado resgate
Abrindo a porta como furando seu peito
A mulher dele quase tendo um enfarte
E Nina sendo salva do seu dia perfeito
E enquanto vão pedindo pra sair com calma
Ela vai perdendo um pouco da alma
Nina de volta cansada
Dando voltas em torno de si
Revolta de abandonada
Vai dizer:
- pára o mundo que quero descer!
por Liseu de Matedi |
4:12 PM
Outras Palavras:
Num súbito ataque de nervos
O motorista teve que parar naquela estação
E descemos todos ainda ermos
Desconhecidos da remota região.
De cara notei o sotaque de um morador:
Falava grego à minha perturbação
E de algum modo constrangedor
Às avessas gerou-se alguma comunicação.
Entrando em ruelas empoeiradas
Marmanjos de cartola e carretel
Empinavam pipas de meninadas
Que choravam pela mãe lá do céu.
No centro da cidade com ares medieval
Um artista cego pinta seus quadros
E a atriz de praça sem sua pintura natural
Não é mais um rosto, observo de olhos vidrados.
Na floresta renitente que perambula ali
Turistas jogam armas pros macacos
Mas a grande atração está por vir
São os primatas com seus casacos.
Numa espécie de pré história lírica
Pois ao invés de caçarem mamutes e acasalarem
Formam corais de grunhidos, tocam tripas, batucam crânios
E depois dos aplausos distribuem o calendário do som.
Ainda avisto longe um pianista tocando pra uma multidão
Acho estranho pois as notas nenhum som contêm
Mas alguém me diz que isso não é problema não
Pois na platéia são todos surdos também.
Não tenho tempo pra estranhar
Meu grupo já está pronto pra embarcar, amém.
E quanto ao motorista e seu súbito mal estar
Dizem que está esperando de dois meses e em setembro nasce o neném.
Que coisa hein?
por Liseu de Matedi |
4:11 PM
Outras Palavras:
Hoje vou olhar vaidoso no espelho
e dar-me uma boa e sonora gargalhada
vou pintar a boca de vermelho
e o rosto com tinta emporcalhada.
Quero vestir o poído paletó colorido
como quem traja autoridade
quero ser um palhaço querido
como um popular chefe de Estado.
Hoje vou contar piada
para ninguém entender nada
vou jogar migalhas de pepita de graça
no meio da desgraça geral, lá na praça.
Vou proclamar em voz alta:
- É chegada a hora dos palhaços ocuparem o picadeiro
e anunciarem à miserável malta
a crônica da vida sem sentido e paradeiro...
Hoje tem marmelada
Hoje vou chorar e desse choro vou beber
Vou depois pra casa e não é não por nada
Mas vou pegar uma mulata e me acabar de prazer
por Liseu de Matedi |
4:11 PM
Outras Palavras:
Expor pensamentos
Cretinos e covardes
Goela adentro
Alimentar-me deles.
Pedacinhos de horror
E deboche
Tem gosto agridoce.
Memórias mutiladas
E distorcidas
Também entram na dieta,
Tudo muito mal
Digerido
Porém saboreado
Pelo paladar
Do sarcasmo
E do escárnio.
Depois de comida
Essa carne
Cerebral e subjetiva
Impor na cara da moça
E na mesa também
Todos os pensamentos de volta
Num vômito nocivo do desdém.
E saio sem pagar nem um vintém.
por Liseu de Matedi |
4:10 PM
Outras Palavras:
Vieram uns homem aqui
Falando que eu tava jurada
Mandei logo o menino chamar a peãozada
Juntaram aqui na porta de casa
Que eu tava ameaçada
Tinha papel assinado
Meu marido já tinha sido assassinado
E foi um recado
Que era melhor eu mudar do barraco.
Mas olha, não arredei
Depois de tanta humilhação
Não tem juiz, não tem coronel, nem tem rei
Que me arranque desse chão
Vou levantar os casos
Vou descrever meus medos
E vou cruzar os dedos...
Ó cruel carrasco
Pedido que te faço
Sou uma sem-terra
Se atirar, me erra
Se acertar, me enterra
Por favor, nessa terra
Que não vai ser minha, nem
De ninguém
No meio dessa guerra.
por Liseu de Matedi |
4:09 PM
Outras Palavras:
Pra toda estrutura de ordem
Faz-se mister um governo paralelo
Se a veia central do homem
É a experiência da consciência
Todo maquinário do organismo
Funciona com emancipação
Baços, rins, fígados, intestinos,
São colônias independentes
Que têm seus dialetos,
Seus trajetos, seus dejetos,
Suas coletas, suas rotinas
E assim é tudo o mais:
O pára-quedas sobressalente
O uso de gerador em caso de apagão
As rotas de fuga em caso de derrota
O prazer solitário caso não haja o amor
O reserva caso não jogue o craque
Um casaco caso chova
Humildade caso precise
Um olho aberto caso durma
As saídas de emergência
As geometrias das cidades
Todos os planos B
São protótipos
Simplórios
De comandos alternativos
Mantenedores
É por isso que nesse estado
Deplorável, falido e ineficiente
Que se encontra o nosso Estado
Precisamos silenciosa e urgentemente
De um poder paralelo territorial
E que seja, de preferência, cultural.
por Liseu de Matedi |
4:09 PM
Outras Palavras:
Meu coração
É todo um sertão
Pergunta-se
Aonde morar?
Não sei de mim
Mas vou pra acolá
Já não sei bem
O meu lugar.
Eta vida que vou levando
Eta vida que vai levando
E eu aqui sem me notar
Eta vida que vou passando
Eta vida que vai passando
Fecho os olhos mas não vou fraquejar...
Hoje aqui
Manhã devem me levar
Tirado daqui pelas mãos do próprio lar
Aonde vou me deixar?
Sobre as pernas é certo que vou
Ao destino que a vida me errar
Procurando saber porque sou
Desterrado em minha própria terra
É a guerra ou é crime
Que faz a minha gente lutar?
Nada impede que enquanto caminhe
Ocupe os olhos de chorar
Meu coração
É todo uma nação
Pergunta-se
Aonde morar...
por Liseu de Matedi |
4:08 PM
Outras Palavras:
Centro da cidade
Tudo engarrafado:
Os sons e os sonhos
Ônibus lotado
Em pé
Entalado
Espremido contra a janela
Cabeça pra fora
Reparo nela
Uma menina esverdeada
Com uniforme de escola pública
No outro lotação;
Damo-nos uma mirada.
Sim, a gente se olha
E nossos sorrisos
Colaboram com a paz do mundo
Somos tão bonitos
Que até o trânsito
Ganha com isso
A gente conversa em silêncio
Cada um da sua janela...
Só falam nossos olhos e risos
E por isso
Vou gostando mais e mais dela.
E nossos sonhos
Perdidos
Partidos
Encontram-se lado a lado
E vejo no rosto dela
O futuro do meu passado
Ela vê em mim
Seu homem encantado
Sei disso porque o que ela sente
É tudo o que eu tinha planejado
E de repente
O nosso destino dourado
Acontece bem ali
Com a gente parado.
O enredo que vou inventando
Ela também está visualizando
Vamos lá:
Estaria ventando.
A gente desceria dos ônibus
E seguiria andando
Sem direção
Sem chegar a nenhuma conclusão
Eu não saberia da sua trajetória
Nem ela da minha estória
Nem a gente saberia
Da estória do mundo
Assim não haveria enganos
Nem planos
Apenas a gente
Se admirando
Se enchendo de ternura
Se apaixonando.
À nossa passagem
As lojas iriam se fechando
O comércio parando
Traficantes se entregando
E a polícia libertando
Políticos se retratando
O morro se declarando
O povo reverenciando
O dia se feriando
A lua ensolarando
E a gente dançando
E namorando
E indo
E morando na beira da praia de Ipanema
Com direito a trilha de cinema
Com nosso tema.
Nosso amor seria um emblema
Um lema
Pra toda a cena
Carioca
Contemporânea.
Inspirados por nossa vida pagã
Outros casais
Jovens
Senhores
Anciãs
Fazedores de filhos e mantras
Iriam morar conosco
E teríamos nosso dialeto
Mistura de sânscrito tantra
Com esperanto
Num sotaque secreto
E faríamos em pouco
Uma comunidade
"Paz e amor"
Mas sem drogas
Uma Seita
Mas sem dogmas
Apenas sol, mar e amores
Inaugurando no Rio
Uma Cidade das Flores...
(...)
Mas quando partem
Os automóveis
E os veículos emparelhados
Aceleram separados
Parece uma despedida precoce
Forçada
Fico procurando indócil
Minha desconhecida namorada
Mas ela já está sentada
- Vagou lugar na próxima parada -
Abraçada com outro camarada.
Sei que não verei de novo essa querida
Mas o que a gente viveu numa efêmera biografia
Num momento de poesia
Ninguém nunca mais vai viver na vida.
por Liseu de Matedi |
4:06 PM
Outras Palavras:
- Não, não e não, não aturo mais! Nem traz!
Aquele bando de anjos amontoados tentava acalmar a delicada Alma. Alma já havia recebido o profile de milhares de pretendentes, os mais variados, tinha turco, tinha albino, tinha corintiano, tinha político e até burguês, mas a coisa só ia complicando, na vez que veio Deus mesmo, e resolveu:
- Alma, minha filha.
- Todo poderoso, confesso que estou perdendo a paciência, assim não agüento.
- Não turbe vosso coração, eis que tenho a solução.
Alma delicada, mas nem tanto, de tão esgotada e descrente, parou diante ao apelo do próprio Criador. Os anjos ficaram todos quietos, a não ser pelas asinhas frenéticas mantendo-os suspensos no ar, cheios de apreensão, flap, flap, flap.
- Tenho aqui o perfil que acredito e que, olha, torço, imploro, que seja o ideal, pelo amor de mim! Veja bem, você já passou da conta, não é, filhinha, eu mesmo adotei aquela frase: tem coisas que até Deus duvida... E estava achando que tinha falhado em uma das minhas criações. Que você era incapaz de amar, que era inconstante, que ia ficar só, uma velha amarga e...
- Pula essa parte, que foi o que mais escutei na vida.
- Tenho aqui o perfil perfeito: um poeta, um homem cheio de utopia, mas que esqueceu que um dia soube voar. Foi complicado localizá-lo, pois estava bem escondido, sob o disfarce de solitário, amargurado, descrente da raça humana. Mas após constante averiguação, ficou evidente: encontramos sua alma gêmea. Um pedaço perdido seu, cheio de delicadeza e silêncio, cheio de esperança nos olhos, cheio de estrelas no peito e com amor extrapolando o corpo, invadindo o mar, onde a onda quebra, amor vazando e...
Como era baixinha, na ponta dos pés, afoita, tentou logo beijar o bom Senhor, mas em vão. Tentou também na base dos saltinhos e ainda assim só conseguia quase alcançar o queixo barbudo do Ser Supremo. O negócio foi partir pro abraço. E ali, abraçadinha, a única coisa que pensou era que o Pai de Todos precisava tão cedo de um regime, mas disso falaria com Ele depois, tinha uma dieta ótima da proteína pra sugerir.
Depois disso, Alma já não escutou mais nada. Sentia no imo da alma que o encontro sublime havia se dado. Sentia o amor voltando a preencher sua etérea camada de luz e criando raiz, criando casca e depois pele e depois carne e depois osso e depois corpo. Já vestia o corpo humano deixando de ser Alma, saltando de alegria solar, radiante em unir-se ao seu grande amor maior do mundo, quando Deus, anjos, Santos e até virgens correram aos tombos e trombos tentando avisá-la.
- Espere! Alma, espere! Ainda não falei tudo! Ainda não falei dos defeitos! Os defeitos desse homem! Os defeitos! Ai meu Deus, digo, ai de mim...
E Alma, sacudindo os braços pra Deus, fingindo não ouvir, dando de ombros, cheia de gratidão e desdém:
- Não tem nada não, que foi?, não, não tem problema, oi?, não ouvi, não estou ouvindo, tá, tá bem, não tem problema, estou com pressa, obrigada, obrigada Deus!
E assim Alma encontrou o amor da sua vida, aquele que a fez a mulher mais feliz do mundo. E às vezes a mais sem paciência também. Afinal de contas, ela não ouviu a parte dos defeitos, e ficou sem saber porque, porque, porque meu Deus, aquele príncipe encantando tinha que ser tão chatinho, hein?
por Liseu de Matedi |
4:00 PM
Outras Palavras:
Alguma coisa que não se explica tem o Jaime, alguma coisa de poesia. Até hoje não se sabe que truque usava, tem quem afirme que não havia truque nenhum; o caso é que o Jaime tinha ao redor de si ou em si, um visgo que prendia por onde passava aquelas fascinantes e infinitas criaturas, as quais meu pai dizia, depois do mar, ser a maior criação de Nosso Senhor: as mulheres.
Num salão lotado, sem tal talento, o Jaime passaria despercebido, não era homem belo, nem alto, nem tinha porte, nem bem dotado era, nem tinha classe, nem tinha carro, nem tinha dinheiro - a não ser alguma coisa pra conseguir pegar o ônibus de volta - enfim, a idéia já se fez clara: o cara não tinha nada que a ciência, a psicanálise, as academias e as novelas pudessem explicar pra tal carisma junto ao público feminino (e a outro também, mas a esse fazia questão de fazer-se de desentendido).
Até os amigos tinham medo de apresentar as namoradas ao Jaiminho - carinhosamente assim apelidado pelos mesmos desde a época da escola. Pois já corria a fama, fama e fato, que não tinha uma que não ficasse no mínimo tentada pelo seu... sei lá o quê, ainda não entendemos direito isso aqui. Era conhecido como destruidor de namoricos, flertes aspirantes a amor eterno e principalmente, sua especialidade, longos e sólidos namoros, inclusive entram alguns casos de casamentos, como da tia Dagmar, que após 60 anos de vida a dois, foi pega no banheiro da Bodega do Norte brincando de "Monte seu próprio Jaime", que naquela altura já estava usando a peruca e a calcinha-fralda da titia, maldita seja aquela velha adúltera.
Agora é importante deixar o humor de lado. A coisa é triste mesmo. Foi num churrasco um dia desses, dia chuvoso, todo mundo ali na parte coberta, cerveja rolando solta, papo descendo redondo, um pessoal jogando cartas, tomando absinto, comendo picanha e lingüiça e na pick-up tocando eternamente - alguém tinha esbarrado naquela tecla de repeat - a song Mr. Lonely, de algum desses rappers cheios de músculos, cordões e negras encorpadas. Foi a trilha sonora, do Jaime pelo menos. Ninguém deu bola praquilo, mas ele ficou ali ouvindo, bem concentrado tentando traduzir o refrão melancólico.
- Tão sozinho
Eu sou o Sr. Sozinho
Não tenho ninguém
Pra chamar de minha.
Ele havia reparado numa menina. E tudo naquela menina valia a pena existir. Com sua típica intensidade e entusiasmo já afirmava pra si que podia casar com ela naquele exato momento, tendo um punhado de bêbados como convidados, carne mal passada no buffet, o churrasqueiro como ministro do céu e a tal Mr. Lonely de Marcha Nupcial. A menina tinha os olhos mais brilhantes que já deparou em vida, e mais importante do que os olhos em si, eram as trajetórias que eles alcançavam. O Jaime ficava tentando olhar tudo que ela olhava, querendo saber onde pousavam, onde paravam seus interesses. Quase sempre era pra um jovem, bem mais apanhado (isso quer dizer: lindíssimo) que ele. Sentiu uma pontada no fundo do peito e tudo que acontecia no evento era traduzido por ele como notícia de dor e morte. Sofria por seu grande amor.
Numas das mesas onde todos conversavam, o Jaime e a menina se acharam, quer dizer, seus olhos, e começaram a conversar. Pronto. Estava derramado, esparramado pela mesa, pingando em gotas suaves sobre a moça, o visgo do nosso inexplicável conquistador. Foi nesse papo, lá pelas tantas, que ela contou radiante de tanta alegria, a sua saga contagiante: o encontro com seu grande amor, uma avassaladora paixão de poucos meses e um casamento já marcado, pra fim do ano. Outra facada na carne do Jaime. E antes que pudesse sacar o que já sabia, o rapaz mais apanhado/lindíssimo que ele, veio trazendo carne, dando carne na boca da amada, beijando na carne da boca da amada.
- Tão sozinho
Eu sou o Sr. Sozinho
Não tenho ninguém
Pra chamar de minha.
A música embalava a alma ferida do Jaiminho. Ventava dentro dele e ameaçava chover. Ficou ali, observando as bocas comendo, conversando, rindo, dizendo coisas que não prestava atenção, pois em todo aquele falatório de gentes, só escutava o mesmo assunto, como se todos cantassem pra ele:
- Tão sozinho
Eu sou o Sr. Sozinho
Não tenho ninguém
Pra chamar de minha.
Mas como eu disse lá trás, ele chegou a derramar um pouco do seu visgo. Olha, nessa altura do conto, acho que sei dizer melhor o que possa ser isso. O Jaime quando deseja, deseja mesmo. E é um baita querer, um querer que move tudo, move os sentimentos do mundo, recompõe o conceito das coisas, dizendo objetivamente, ao alvo de desejo é como se, por exemplo, essa menina, sentisse que toda a revolução que a existência está passando, vista através dos olhos do Jaime, fosse só por causa dela. Como se ela fosse o sentido do mundo querer mudar. Acho que está explicado. E foi assim, lá pelas tantas, no banheiro que fica nos fundos, quando lavava a mão, tristíssimo, que Jaime deparou com a menina bem na sua frente. Ela não falou nada. Nada mesmo. Passou a mão docemente no rosto do nosso Sr. Sozinho, ele se desmanchou e parece que aquela promessa de chuva se dissipou. Depois ela lentamente aproximou o corpo junto ao seu. E o abraçou. O envolveu como se embalasse um mundo novinho, fraco e desprotegido, com todo afeto que há nessa vida. Pra serenar a cena, ela beijou-o, na bochecha direita, um beijo que parecia trazer consigo uma semente, um beijo que crava e se demora na pele, como se quisesse plantar algo bom ali. Sorriu com absoluta atenção pra ele, e foi isso.
O Jaime não voltou pro churrasco. Foi caminhar lá pela beiradinha da praia. E como chorou o Jaime naquele fim de tarde. Chorou como não chorava desde que não ganhou, naquele Natal da infância remota, o carro com controle remoto que tanto queria. Chorou assim mesmo, com mimo, com capricho, sem medo de parecer ridículo ou piegas, sem ter que ser maduro ou contido, chorou igual menino, sem medida, sem juízo, sem postura, sem vergonha, sem estilo e tendência.
Na sua cuca, tocava a música do Sr. Sozinho, que era ele. Lamentava-se, lamuriava, numa nostalgia de não sei o quê, cheio de autopiedade, agora sentado na areia, fazendo beicinho de carente pro mar. Foi quando o Vinícius de Moraes ou o espírito daquele que um dia foi o Vinícius, sentou, com certo peso e dificuldade, ao seu lado.
- Uma vez, num bar em Salvador, eu lembro que estava numa baita depressão. Tomando todas, querendo me afogar. Aí a Bethânia apareceu com uma coleguinha, vieram pra me cumprimentar. A Bethânia estava me achando tristinho e veio me dar um cheiro, pra me aliviar as mágoas. Olha, quando me voltei e vi a amiga dela, aquela baiana, novinha, cheirosa, porra, endoidei. Falei: Bethaninha, vou casar com sua amiga. Ela não acreditou, disse como que eu, que estava deprimidíssimo, carregando toda a dor do mundo na corcunda, de um instante a outro falava em casar. Eu disse que ia dentro de uns dias pra Buenos Aires e queria que a amiga dela fosse comigo.
O Jaime enxugou as lágrimas e ficou curioso.
- Ela foi?
- A Bethânia seguiu rumo. Naquele bar mesmo, eu e a amiga conversamos por toda madrugada. Foi. Foi pra Argentina e se tornou minha esposa. Minha sexta. Ou sétima. Agora não sei precisar.
Silêncio até do vento.
- Vinícius, você acha que se não tivesse casado tantas vezes, nove né, acha que teria sido o poeta que foi, que é?
- Pro que eu entendia onde podia encontrar o amor, acho que não seria. Precisei das nove mulheres. Elas sempre me guiavam de volta pro amor que tanto buscava.
- Caramba, eu vivo cobiçando mulheres que não são minhas. Quase sempre consigo. Confundo os sentimentos delas. Mexo com tudo. Só faço estragar a vida dos outros.
- Teve uma menina, de família, tinha 18 aninhos, uma gracinha, que estava noiva, um relacionamento firme, com data do casório e tudo. Mas eu fui me chegando, como quem não quer nada e consegui encantar a jovem. Foi um escândalo pra família. Ela foi minha terceira esposa. Ou quarta.
- Por que agimos assim?
- Preste bem atenção, pois ninguém veio falar isso comigo. Você não está apaixonado por essas meninas. Nem está cobiçando essas meninas. Você está apaixonado pelo amor que transborda delas. Você está enamorado pelo amor que escorre dos corações dos casais. Por isso seu interesse apenas por moças comprometidas. Nesse sentido, você também ama os namorados delas. Eles com elas tornam possível o que o atrai. Você ama o amor. Você cobiça esse olhar que algum par já construiu entre si.
- O que faço então?
- O mais importante: não ouse mais desmanchar esses laços. Isso é sagrado. Não seja você o causador dessa terrível vilania. Ao contrário: proteja os casais. Lute por eles. Una casais apartados. Admire-os. Do mais, refine seu olhar. Aprenda a olhar. Olhar nos cantos. E descubra sua namorada como um navegador que busca uma terra desconhecida. Ela está por aí. E procure criar essa ligação profunda com ela. Se não conseguir, não traia. Faça como eu. Case. Case quantas vezes precisar. Não importa se uma, duas ou nove. O importante é buscar amor. Melhor casar muito e amar muito, que casar com uma e amar nenhuma. Lembre. "...Viver sem ter amor não é viver".
- Essa frase, se não me engano, é de uma música sua. Se vai citar, que pelo menos cite algo com mais estilo. Você tem coisas melhores.
- Está bem , rapazinho, está bem. Pra não perder a viagem: "que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure".
- Melhor.
E foram os dois, caminhando pela areia da praia, jogando papo na espuma do mar, até o sol clarear.
por Liseu de Matedi |
3:58 PM
Outras Palavras:
O frio agasalhou a cidade. Mas eu trazia meu sol comigo. Os paulistanos abrigavam-se nos seus casacos, moletons, jaquetas e sobretudos. Enquanto isso, eu fervia. Foi quando fui dar diante àquela igreja. Aquela da imagem grandona do Santo Expedito. Na porta de entrada havia uma enorme faixa dizendo que celebrariam várias missas em comemoração ao dia 19 de abril. Dia do Santo Expedito. Santinho meu! Como pude esquecer? Fui entrando na igreja, atraído por várias barraquinhas com aquelas mulheres boazinhas perguntando se você quer alguma coisa. Adoro o clima de algumas igrejas, adoro barraquinhas, essas mulheres boazinhas, essa coisa interiorana. Sempre fico embevecido em lugares assim. Foi então que vi uma barraquinha diferente. Não tinha nenhum artesanato, nem pinturas, nem quitutes, nem sopa, nem terço, nem cruz. Tudo que nela havia era um bolo enorme, todo adornado. Uma senhora sorrindo já veio me esclarecendo:
- É um bolo abençoado pelo padre. Dentro foram colocadas várias medalhinhas de Santo Expedito, distribuídas aleatoriamente, uns pedaços com, outros sem.
- O que acontece se eu pegar um pedaço com medalhinha? - perguntei cheio de esperança.
- Você faz um pedido. E por ser uma data especial, Santo Expedito se encarrega de realizar todos, de imediato.
- Que legal. Vou levar um pedaço.
Sentei num dos bancos no pátio da igreja e ajeitei o guardanapo de modo que pudesse cravar meus dentes na parte do bolo com mais recheio. Hesitei. Fiquei ali, encarando aquela fatia cheirosa à minha frente. Qual pedido deveria desejar? Desfilaram todos na passarela da minha dúvida, desejos dos mais variados, iam e vinham, cheios de charme, trocavam de roupa, usavam acessórios, tudo pra me convencer à cerca de qual seria o predileto. Disputa inútil; após muitas mordidas e muita torcida em cada pedaço, ficou claro pra nós, meus desejos e eu, que não havia medalhinha na minha fatia de bolo. Um pouco magoado, me convencia de que isso era uma bobagem, não valia a pena, não era importante, uma coisa de nada, esquece, vai viver, mas porque não paro de pensar e repetir isso, já está o parágrafo se alongando, chega, muda o rumo da prosa, vai caminhando e deixa essa igreja, nessa hora quando ia saindo, ouço uma risada de alívio, de satisfação.
- Opa, desculpe... me empolguei - a dona da risada se pronunciou encolhendo os ombros.
- Tudo bem.
- É que encontrei a medalhinha no meu pedaço de bolo. - ela continuou me dando explicação com um ar espontâneo, com uma intimidade natural, como se eu não fosse um estranho.
- Ah... isso. Bom, bom pra você. - falei cerrando os olhos, ameaçador, enquanto mostrava meu guardanapo.
E ela surpreendentemente morreu de rir, assim, sem esforço, natural, sabedora das minhas nuances de comediante medíocre.
- Desculpe, não sabia... é muito chato né. A gente fica se convencendo que é bobagem, mas no fundo torce pra achar a medalhinha... não tem jeito, sempre cria uma expectativa.
- Isso é. E me diz, é boa a sensação?
- É uma alegria boba. Não é nada demais, ainda mais que nem sou católica praticante. Mas é boa a sensação.
- Já fez o pedido?
- Ia fazer agora.
- Vou te deixar à vontade.
- Não, pode ficar. Só fica quietinho um instantinho.
Pra minha surpresa, naquele instantinho de silêncio ao lado dela, tendo ao fundo as vozes das mulheres boazinhas, senti uma profunda paz, me senti profundamente feliz, pleno. Foi um dos momentos mais confortáveis da minha vida.
- Pronto. Será que vai se realizar? Depois te conto.
- O que você está fazendo nessa igreja?
- Minha mãe está naquela barraquinha ali. Vim pra ajudar. E eu também gosto de vir pra cá às vezes.
- Por que?
- Faz lembrar o clima da minha cidade. Clima de cidade pequena. Eu gosto. E você?
- Eu estava passando. Andando sem pensar em nada. Sem notar parei aqui. Não sou muito religioso, mas tenho uma estória com Santo Expedito. Engraçado, nunca tinha prestado atenção nessa igreja.
- É bem bonita.
- Eu estou aqui lembrando. Quando eu era mais novo, eu tinha mania de sair por aí, à toa, pegava um ônibus qualquer, pra qualquer lugar, passava o dia assim, da janela vendo as pessoas na rua, conversando com trocador, motorista, é. Faz tempo que não faço isso.
- Hoje você fez. Não foi de ônibus, mas fez. Seus pés te trouxeram aqui. Viu só?
- É.
- Débora! Me dá uma ajudinha aqui, menina!
- É minha mãe. Tenho que ir.
- Também tenho que ir. Ei, e vem cá, você, você... quer dizer... você vem sempre aqui?
Patético. Ela começa a rir de novo. Eu sacudo as mãos, quero gesticular dizendo que a frase saiu estranha mesmo, ela acena que entendeu, a gente se entende.
- A frase saiu estranha.
- Agora que descobriu a igreja, vê se aparece. Ah, e depois vai ter que me contar sua estória com Santo Expedito.
- Só se você me contar o seu pedido.
- Mas aí ele não se realiza.
- Será?
- Depois te conto.
- Certo. Trato feito.
Então ela disse tchau. Eu fui caminhando em bolhas de nuvens, cantarolando alguma coisa fora do tom. A senhora que me serviu o pedaço de bolo, notou a minha alegria boba, dessas que são boas de sentir, quase uma bobagem, e soltou essa:
- Ora ora... posso saber porque está sorrindo assim?
- Achei minha medalhinha, achei minha medalhinha.
(...)
Uma manhã tão feliz por conta de uma medalhinha.
por Liseu de Matedi |
3:57 PM
Outras Palavras:
Por favor, me respeite. Não venha com essa não, de me dizer: "ai, hoje você está revolt". Não me imponha esse comentário cretino como se houvesse uma superioridade de você pra mim. Não há. Você não detém as verdades, suas opiniões não são as únicas, abra essa cabeça. Quando a gente conversa parece que tudo que não venha da sua boca é besteira. O pior: pára de fingir. Você é inseguro, bota uma banca, é tudo de mentira, você é aquela pessoa que lê a orelha do livro e sai por ai cuspindo merda, falando que entendeu tudo. Você não me traz perguntas, nem dúvidas nem curiosidade. Quando você ouve música clássica, você não sente nada, não percebe nada. Nem a intensidade do dedo que toca a tecla, nem a dor pungente a qual sofre o intérprete, nem a substância interna que abastece a alma da canção, nada disso chega a você. Você só conhece de dados, datas, técnicas, teorias. Suas explicações são meras repetições dos livros, dos fatos conhecidos. Tua mente não alcança a profundidade de nada porque seu objetivo é só saber mais e não sentir mais. Você quer material para usar nas rodas sociais, para travar debates e ganhar. O sentimento das coisas não interage nas suas verdades e ainda sim, você se acha o máximo, sua palavra é arrogante e destemida, não tem paciência e, num sorriso irônico, mostra ao outro o quanto você é um intelectual estudioso detentor da palavra final. Você é uma farsa. Sim, causa impacto, é bem recebido, todos te acham foda, uma pessoa brilhante. Mas a mim não engana. Para mim é um canastrão falastrão, fala demais. Quanta bobagem, acho mesmo tudo bobo e vazio. Fique quieto um pouquinho, reflita, pense mesmo, pára de atirar para tudo quanto é lado. Vai-te a merda. Chega disso. Você não é melhor do que eu, não mesmo. Não me diminua. Minha opinião é relevante sim, seja humilde, admita, admire meu comentário, aprenda com ele também, sou útil, ouça vai, reconheça e, para mim o mais importante: não faça essa cara de quem está aturando o meu comentário e com sua sabedoria superior se cala, ó que lindo, se cala, cede. Por fim, não preciso mesmo que acredite ou concorde com nada disso que falei, mas por favor: me respeite. Ouviste? Eu quero respeito.
por Liseu de Matedi |
3:33 PM
Outras Palavras:
Sabe o que mais me tira do sério? Pessoas que se acham as donas da verdade. Que enchem o peito para definir suas teorias de mundo e o fazem sem a mínima sensibilidade para acolher novas idéias, novos rumos que um pensamento pode tomar. São pessoas que se apóiam em verdades conhecidas e até envelhecidas, onde muitas já estão obsoletas e incabíveis. Esse tipo de gente lê num livro o que um antropólogo falou ou um grande filósofo ou artista e repete tudo como um papagaio num debate caloroso. Fazem as mais perfeitas resenhas sobre determinado assunto, são ótimos em retórica, mas dificilmente chegam disponíveis numa conversa. Fica parecendo que tudo já está definido e que o outro não tem muito a acrescentar às suas constatações e por isso, não te ouvem realmente. Acham que tudo é uma disputa e querem derrubar a opinião alheia para valer a própria. No tempo de Galileu seriam os defensores das leis em voga e, muito convincentes, explicariam com clareza porque tudo gira em volta da Terra que inclusive é chata e cercada de abismo nas extremidades. São exatos e concretos nas suas 'defesas', mas nunca inovadores, revolucionários, curiosos e inquietos. Porque para ser perfeito e se fazer claro basta ter dados, fontes, provas de algo que já foi visto e comprovado: a fonte para a argumentação é rica e vai ter apoio numérico. Ao passo que para ser incompreendido, taxado de louco, receber pouca confiança pública basta se ter algo em potencial, mas sem meios constatados para demonstrar. Mas aí está a beleza do potencial: ainda poderá nascer, mas deve ser investigado, testado, questionado. Mas os donos da verdade vão reagir contra: já têm tudo definido e não querem somar, acrescentar ou mesmo mudar tudo que é estabelecido. Eles vêem as coisas como são exatamente, não como podem ser depois e depois. Em suma, são pessoas que nunca se apresentam vazias, flexíveis, vulneráveis, imperfeitas, falhas e mutáveis. Conversar com elas é constantemente um desgaste, pois a troca não acontece, e ao final, nada é transformado. Nem as idéias nem as pessoas.
por Liseu de Matedi |
3:30 PM
Outras Palavras:
Se eu pudesse ser algo abstrato, uma obra de arte, uma natureza viva... Seria uma melodia. A melodia é ousada e materializa-se em qualquer dimensão. Pode ser densa e nunca notada; não pertence a grupos ou ao criador de sua cadeia de notas; a melodia dança todos os ritmos quando realmente bem construída; ela pode abraçar o vento e os faróis, correr rasteira na beira de um homem ou ao redor de muitos homens; doida em vestes de santo, pura em poses de puta, lobo em pele de cordeiro, cordeiro que se alimenta de carniça; a melodia se vende barato em Copacabana, se vende com requinte em saral clássico no Velho Continente, em Genebra. Amada pela juventude viva, cheia de si, repleta de sexo, carne, show de rock na MTV; amada pelo maestro de câmara, coreógrafo tcheco no balé do Municipal; tocada nas rádios populares, nos morros e praias; tocada nas orquestras, sinfonias e concertos em si bemol; ouve-se nos potentes compact discs em incredible surround sound, ouve-se num vinil de um senhor bonito no interior de Alagoas. A melodia invade a película do cinema, brinca com seus elementos, interage e comove, faz o mocinho matar ou morrer, inspira e incentiva o beijo do final, leva até certos filmes nas costas; a melodia invade a pintura quando se condensa em traços, como fio condutor, onda propagadora de inspiração; a melodia funciona em todos os vínculos de comunicação, em todas as formas de arte: dança, poesia, pintura, cinema, televisão, teatro. Ela cabe na canção, no assobio e no verbo falado. E ainda assim, funciona sozinha, sem a necessidade de mais ninguém. Se eu pudesse ser uma coisa bonita e completa, eu seria uma melodia. Com certeza.
por Liseu de Matedi |
2:52 PM
Outras Palavras:
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