Tratado das Pequenas Coisas
sou tão por fora que não existe dentro em que eu esteja.


Sexta-feira, Abril 04, 2008



SAGAMUNDO
poema que inspirou a canção

Nasci careca, pelado, sem dente
Doente de fome de mundo
E sede de mar.
Toquei rabeca, toquei gado e arado
Não tem pecado ainda inventado
Que eu não fiz questão de pecar.

Varei a Terra, varri do avesso
Virei verso, confesso,
Com falso gostar.
Engoli moças macias com cachaça
Depois cuspi a carcaça
Só por degustar.

Eu fiz a guerra jorrar das gargantas
Só pra que, lá pelas tantas,
Eu próprio pudesse a paz inventar.
Ergui bandeira, fundei a nação
Perdi a noção e fiz tudo afundar.

O mundo é o que eu inventar...

Fui cabeludo, cigano do ano
Fui servo, fui amo, eu amo mudar.
Mudei de ramo, de plano, de casa,
Virei a casaca
Hoje sou da torcida rival do time do qual ajudei a criar.

Pratiquei crime, também fui sublime
Mas não causei dano, só se por engano
Tive sotaque baiano por mais de um ano
Sem nunca ter pisado por lá.

Peguei navio, tomei um desvio,
Impedi o pavio da bomba estourar.
Já fui cambista, artista, santista
Frentista num posto lá em Cuiabá.
Fui carioca, vendi tapioca
Morei numa oca numa plantação de guaraná.

O mundo é o que eu inventar...

Morri careca, pelado, sem dente
A minha dentadura mandei reciclar
E cada órgão doei pra um doente
De fome de mundo e sede de mar.

Depois do óbito, agora orbito
Vivendo aos pedaços, no vão dos espaços
Transplantado nos corpos
Que vão me levar.

Mas faço a festa
(Vai ser imperdível!)
No dia incrível
Que todos que eu sou
Me encontrar!

O mundo é só inventar...

"Inventar aumenta o mundo"
Manoel de Barros

por Liseu de Matedi | 10:44 PM Outras Palavras:

Domingo, Fevereiro 10, 2008



Um ponto de vista
É uma vista suja.
Pode ser visão mista
Onde a sílaba cuja
No meio da pista
Abala. Fuja

da vista com ponto.
Vista a visão branca
Que não te deixa tonto
Que é pura e franca
Que não tem molde pronto
Que abre o trinco e não tranca.

por Liseu de Matedi | 5:07 PM Outras Palavras:

Segunda-feira, Janeiro 28, 2008



Sol a pino
No mural do dia...

Suor pinga dos telhados
E molha os lembretes,
Os bilhetes de amor
Neste painel de recados.

Sol a pino
Segura o mundo pela beiradinha
Sem laço, sem tacha, sem bainha.

Mormaço racha a cortiça
E o cortiço se atiça suado
Mas tem preguiça
De pintar o astro dourado
De azul enluarado.

(No calor ninguém tem pudor
E não pecar fica sendo o maior pecado)

Até que um albino
Torturado
Decide tirar o sol alpino
Desse mural de pecados

Cuidado!

( ... )

Agora podem despregar o céu estrelado
Enrolar e botar em cima do caminhão
Quando o pino do sol a pino foi descravado
Caiu-se o mundo do mural
E não sobrou na parede chão sobre chão.

por Liseu de Matedi | 9:02 PM Outras Palavras:

Sábado, Outubro 20, 2007



Ela é a minha rua sem saída
Não por impedir o ir e vir
Ou por não dar numa Avenida
Mas porque dela não quero mais sair

Ela sabe se divertir
E tem gosto em se perverter
Talvez seja só pra me ferir
Mas é claro que vou me render

Ela é cheia de esconderijos
Onde lhes recheiam membros rijos
Mais achada que perdida
Mais furada que fodida

Ela tem o corpo marcado
Por amantes e pelas rixas
É dada ao pecado
Aos boêmios, aos mendigos e às bichas

Ela atrai e ela assusta
Mas eu volto mesmo assim
Porque eu gosto da Augusta
E a Augusta gosta de mim

por Liseu de Matedi | 10:59 PM Outras Palavras:

Quinta-feira, Setembro 13, 2007



Não é só do despejo de resíduos tóxicos e fumaça que se mata o coração de um planeta. Cada pedaço de rancor e trauma humano contamina nossa crosta. Uma palavra de ódio jogada no meio da rua vira gás venenoso e, quando inalada, transforma qualquer cidadão em perigoso. A intolerância e agressividade nas relações pessoais vão se esfarelando em migalhas que, levadas pelo vento até as fronteiras, se tornam pólvoras instáveis, deixando o ar carregado de promessas de caos.

Uma vez contaminados, só nos resta despejar nossas mágoas, frustrações, raivas, medos, cachorros loucos no quintal da sociedade. Assim sendo, não há nada mais natural que os pitbulls, largados pelos donos na esquina mais próxima, atacarem crianças indefesas. É o monstro querendo destruir o belo. Os pitbulls são a materialização dos nossos bichos interiores, nós os criamos. Nada mais justo, pois a natureza busca equilíbrio através das aberrações, através dos expurgos. Não me assustará o dia em que os pitbulls se voltarem contra os seus donos no corredor de casa ou acordarmos todos, como num conto kafkiano, transformados nessas feras, se é que isso já não aconteceu na figura dos marmanjos de orelhas murchas soltos por aí.

Portanto, não é de estranhar que jogadores caiam nos campos de futebol com seus corações parando de bater do nada, pois é esse o futuro que nos espera: sermos bichos ou cadáveres deprimidos. Corações doentes de amor desistindo de viver. E as pessoas morrendo pelos lugares, pelos caminhos. Corpos tombados na saída das escadas rolantes e pessoas pulando o entrave com naturalidade, corpos despejados dentro das latas de lixo, boiando nas praias, empilhados nos bancos das praças, com a cara enfiada no prato no restaurante, inclinados nos assentos das arquibancadas vazias, sentados nos sofás diante das televisões e dos computadores.

O mundo está muito doente, os hospitais estão fechados e o tempo do afeto acabou. Só nos resta torcer para que o coração do planeta seja forte e que muito em breve encontre um grande amor.

por Liseu de Matedi | 7:11 PM Outras Palavras:

Sexta-feira, Agosto 31, 2007



Uma senhorinha faleceu ontem no seu leito de vida, deixando filhas e netas. Em volta da cama todas murmuravam prantos como se tecessem juntas um véu mortuário. Só uma das filhas guardava um sorriso atrás do siso. Uma neta notou, perguntou, e ouviu a resposta ao pé do ouvido.

- Sua vó morreu como todas nós gostaríamos de morrer. Não de dor, nem de doença. Morreu de sono.

Morrer pode ser bonito. Pode até nem ser morte. É o que chamam por aí de rito de passagem. Talvez um dia, num futuro bom, os mundos se toquem, se vejam, se ouçam e se cheirem. E a gente possa dizer:

- Vou fazer um intercâmbio no lado de lá.

- Faz um favor? Lembra ao seu tataravô que pra semana preciso falar com ele sobre aquele sarau de música que estamos organizando.

Dizem que a senhorinha que faleceu ontem, nos últimos tempos já conversava com sua mãe, assim, de bater boca. Imagina só: populações terráqueas inteiras com essa capacidade de se comunicar tranqüilamente com o além como se fosse uma Internet orgânica? Já vejo detetives desencarnados passando relatórios isentos de burocracias e CPIs:

- Sabe aquele político, aquele que num discurso emocionado arrancou lágrimas da platéia? Roubou mesmo. Caso encerrado.

Claro que nem tudo será perfeito. Haverá tribunais conjuntos julgando espíritos pelos crimes de espiar banho de mulher casada, ou de delatar pra bandido local o sigilo bancário de empresário e doutor. E as embaixadas do etéreo reclamarão aos governos a entrada dos suicidas em suas fronteiras de modo ilegal.

Poderemos também aposentar algumas expressões medonhas como: estou morrendo!, para: estou de mudança...

- Ah, vai mudar de casa? De bairro? De cidade? De país? De planeta?

- Não, de plano físico.

Dizer: vou me mudar, não vai significar mais: vou pra outro lugar. Mas sim: vou me transformar, vou mudar do corpo de carne e osso para o corpo de ectoplasma e sândalo. Ou ectoplasma e música. Depende do gosto de cada um.

Aliás, acho mesmo que música pode ser o tipo mais elevado de corpo. O Shakespeare morre e volta como uma Bachiana. Picasso bate as botas e volta como uma obra prima do Tom Jobim. Ser-música é a maneira mais perfeita de alguém alcançar a vida eterna. E não estou falando poeticamente! Exijo considerações científicas!

Tem gente que não morre; desencanta. Tem gente que vira purpurina. Eu, quando me mudar de vez daqui, quero virar canção, se possível uma inédita deixada por mim no leito final. Uma canção bem brasileira que caia na boca do povo e que seja cantada para sempre, sujeita a versões.

por Liseu de Matedi | 7:30 PM Outras Palavras:

Domingo, Junho 03, 2007



Só quem tem sangue nas veias é que pode botar pra ferver. E ferver é muito melhor que ser apático. Prefiro um menino ardendo em febre a um menino anêmico. Sem contar que quando se está com anemia, eles nos empurram umas comidas horríveis, que ou você vomita ou se cura de vez. E pedir com jeitinho não funciona. A gente faz beicinho, bate o pé, tem um chilique. Só mesmo umas boas palmadas na bunda pra resolver o debate. Eis o poder do tabefe: não só comemos, como a doença some rapidinho. Ah... Que saudades das surras de mamãe. Aliás, foi inspirado no ofício das mães que o Che Guevara inventou essa: "Hay de endurecer pero sem perder la ternura". Tem coisa mais amorosa que uma palmada materna?

Por essas e outras que sou a favor da violência. Não tanto por ética ou índole, mas porque senti na pele e como dói! E admito que em certas ocasiões talvez nada seja mais eficiente que um bom safanão. Ou mesmo uma violência verbal. Tem gente que é tão ordinária, gente tão mesquinha e tacanha, e pior, gente malvada, que não adianta apelar pro diálogo cordial. Não tem gramática, pronome, advérbio, frase de efeito, Santo ou Orixá que resolva a questão. Apelar pra consciência do cidadão? Que consciência? Você tenta falar dos valores da família, bota a mãe dele no meio da discussão e ele acaba botando no meio da sua.

O jeito é partir pra briga. E uma boa briga pode lavar a alma. Seja pela honra manchada do seu time, seja por uma ideologia, seja pela convicção de uma opinião; brigar pode ser bom. Pode trazer de volta o ímpeto e a coragem, o gosto pelo desafio, a vontade de auto-superação, de provar que somos vencedores. O ato de nascer já é a primeira briga que perdemos, contra o médico que nos arranca a fórceps da boa vida. E não pára por aí: a gente perde o peito da mãe, perde os primeiros dentes (é por isso que numa briga o que todo mundo quer é dente por dente... quem não se gaba de perder uns e ainda deixar o outro banguela?), perde o primeiro beijo, perde o lugar na dança das cadeiras quando tiram a música, perde a prova, perde a cabeça, perde a chance, perde o gol, perde o tempo, perde o trabalho, perde alguém, perde cabelo, ganha barriga, perde e perde e perde de novo. A gente briga pra perder. Mas se a gente vive pra morrer, qual é o problema?

Não estou fazendo apologia à violência. Longe de mim. Já senti na pele e como dói! Mas com políticos que se sabotam e se esbofeteiam em pleno congresso, com policiais corruptos que matam e matam pior que muito bandido, com balas perdidas que saem livres por aí, impunes, nesse país onde um tapinha não dói, ainda seria necessário de minha parte fazer alguma apologia à violência?

Brigar talvez não seja a atitude mais nobre. Mas pra quem está na inércia, ser nobre não é o passo mais próximo. A própria natureza não pula estágios: pois calmaria antecede tempestade e a sucede depois. Acredito que a gente ainda chega lá, nesse lugar de paz onde o sol brilha pra todos e do céu jorram leite e mel. Mas antes disso é preciso curar a anemia, é preciso arder em febre e ferver o sangue nas veias. E nada melhor do que a lembrança da mãe, com o chinelo na mão num ato de quem espanca, mas espanca doce, pra botar muito marmanjo pra correr.

por Liseu de Matedi | 12:32 AM Outras Palavras:



O funcionário público trabalha a vida inteira, paga sua fatia de impostos e espera que no inverno do tempo da vida, receba sua justa aposentadoria. Mas a previdência social e as resoluções do presidente, no momento em que esse homem precisaria da justa retribuição do seu Estado, depois de ter sido um pronto contribuinte e colaborador da nação, recebe um parco salário que mal lhe garante o pão. O idoso, ex-útil, passa ser um estorvo pro país e deixa de receber a merecida recompensa que nada mais é que seu próprio dinheiro suado, investido ao longo dos anos.

Uma senhora que sobrevivia com um aparelho que bombeava oxigênio e só funcionava na eletricidade, após implorar que não cortassem a luz, mesmo com seus atrasos no pagamento, morre porque lhe faltou o ar.

Qualquer dia será nos cobrado até o oxigênio e ai de nós se não pagarmos nossas contas em dia.

por Liseu de Matedi | 12:25 AM Outras Palavras:



Acho corajoso quem resolve ter filhos nos dias de hoje. Ainda mais quando a criança vem duma gravidez indesejada ou até inesperada. Falo disso porque sinceramente não saberia educar meu rebento. Já não sei mais o que é certo ou errado nessa sociedade cheia de leis mutiladas, leis pela metade. Leis que parecem truque de mágico: o chapéu sempre tem um fundo falso.

Em Portugal, o presidente não fez uso do veto e pelo voto foi permitido o aborto até a décima semana de gravidez. Esse assunto sempre dá o que falar.

No noticiário da noite, assisti uma reportagem que, com uma câmera escondida, denunciava uma clínica de abortos no sul do país. A clínica se intitulava "Planejamento Familiar" e as imagens mostram uma consulta onde o casal de jornalistas, que se passa por pacientes, é atendido por uma psiquiatra que avalia o caso. Num dado momento ela diz que nem família, nem amigos têm o direito de julgar a mulher que toma essa decisão e que cada pessoa sabe o que é melhor pra si. Depois surge outra matéria, dessa vez sem câmera escondida: é uma entrevista com a dona da clínica. E ela não se abala, não se mostra acuada ou culpada. Diz que as meninas por vários motivos chegam decididas a abortar. Que se não fizerem ali, vão procurar qualquer lugar sem a devida precaução e assistência médica adequada. O repórter então lembra que aborto é crime e a mulher fala calmamente:

- Sim. Mas entenda. Não é deixando na clandestinidade que vamos impedi-las de continuar fazendo.

Ainda pra ilustrar esse assunto, vi um filme onde uma mulher pacata e idônea, boa mãe e esposa, que toda manhã sai pra cuidar de pessoas doentes em seus domicílios, é condenada como criminosa por fazer abortos em meados do século, na Inglaterra. Ela não cobra nada pelo serviço e faz tudo com muito cuidado e limpeza, sem derramar uma gota de sangue. Com isso as meninas permanecem socialmente aceitas e ainda servíveis pra casar.

Quem deveria ser julgada e condenada? A médica que fez o aborto? Por que não a mãe desnaturada? A mãe que, irresponsável e imatura, em vários casos escolheu essa saída por mais de uma vez? Por que não o pai imoral? Que, em vários outros casos, forçou a moça, agiu com requintes de crueldade, usando e abusando da confiança da parceira? Muitos homens pacientemente namoram meninas novas com um único interesse.

Cada pessoa não deveria ter a liberdade de decidir o que é melhor pra si? É proibido fumar? É proibido beber álcool? Não são drogas mortais, o cigarro e o álcool? E as pessoas não fazem mal a si com esses vícios? Não morrem de câncer, de cirrose? E não fazem tudo isso em liberdade de escolha?

E a eutanásia? Quem desliga o aparelho ou aplica a injeção é culpado? Não? Porque foi o paciente que pediu? Em que estado de consciência e racionalidade ele pediu? Será que um feto sensato, nesse mundo doente, não pediria o mesmo?

É esse o caso? O feto não tem poder de escolha? Tem quem diga que o feto já é um ser humano. Religiosos dizem que já tem alma. Outros dizem que não. Que em certas estados da gravidez não passa de uma combinação química.

Até certa idade, a criança não é responsabilidade da mãe? Quem responde por ela? Pelo menor infrator, não são os pais que assumem a culpa? Ora, se o feto, dentro dessa cronologia, vem antes da fase criança, não é a mãe então que responde pelo feto, já que ele ainda não pode decidir por si?

É justo tirar o filho obeso de uma mãe? A criança, nesse caso, pode falar por si? Quem decide que o governo tem essa autoridade? E quem decide que uma mãe carregando um feto não tem também?

O que queremos abordar (ou abortar): a proibição do aborto ou das clínicas que o fazem? Se for a primeira opção temos um trabalho quase impossível: fazer com que milhares de mulheres controlem seu impulso reprodutor, respeitem seus corpos, só façam sexo com amor ou camisinha. Mas se o caso é legalizar ou não as clínicas especializadas no assunto, então estamos equivocados. O fechamento dessas não garante o fim da questão moral. Pelo contrário. Não seria nem preservada a vida dos fetos, nem das muitas mães, que morreriam (e morrem) por infecções e contaminações nas mãos de médicos açougueiros.

É assassinato o que o espermatozóide escolhido faz com os outros espermatozóides que não conseguem chegar ao óvulo? Esse espermatozóide matou futuros seres humanos? Deve ser julgado e condenado por isso?

Com que julgamento moral pode a humanidade condenar o aborto como assassinato, se ela própria vem se encarregando de matar milhões em guerras, execuções, intolerâncias e descasos com a vida humana?

Se o feto pedisse pra não nascer, nesse caso, não seria crime?

por Liseu de Matedi | 12:20 AM Outras Palavras:

Sábado, Abril 14, 2007



Nunca acreditei na pré-história que os livros guardam. Muito menos na que os homens contam. O que, aliás, é a mesma coisa. Livros são gaiolas de palavras que alguém um dia notou e outro alguém anotou.

Lembro muito bem, na infância, as missas do colégio. O padre gordo e suado descrevendo as delícias do Éden, as tentações da maçã. Mas tudo que eu imaginava eram as delícias da Eva, nuazinha. Achava estranhíssimo essa idéia de dois seres únicos, civilizados e puros, colhendo frutas num pomar celestial. Pra mim, eles seriam mais como dois bichos, sujos e cabeludos, se cheirando, se lambendo, se querendo.

Mais tarde, lendo artigos reveladores em revistas de ciência, também não concordei com aquela visão, desenvolvida por homens que estudavam fósseis, restos de ossos. Ora, se acaso no futuro encontrassem o esqueleto do meu fêmur, ou mesmo do meu crânio, saberiam dizer os cientistas o modo como eu sentia? Se minha tristeza era mais ou era menos profunda? Saberiam dizer se, sendo nativo de câncer, era eu mais apegado à memória das pessoas do que a elas próprias?

Os primatas, na minha crença, também não chegam a ser os macacos que pregam por aí. Tomemos o exemplo do meu cunhado. Praticamente um Ogro que bebe e come, mas que sempre chora no final do "Rei Leão". Ao meu ver, os primatas tinham sim, os instintos brotando na epiderme, mas vejo perfeitamente uma boa fêmea prenha catando piolhos na cabeça do marido, enquanto esse mesmo tira bichos-de-pé com a boca após um dia gratificante de caçada. Vejo-os ainda batucando algum som em tambores feitos de crânios, tocando lira em cordas de tripa, urrando alto alguma nota que bem podia ser um dó menor.

Enfim. Nem tanto à Bíblia, nem tanto ao Darwin. Nem tanto aos dogmas, nem tanto às teorias sintéticas. O homem não é sintético. Se fôssemos uma raça imortal, descendentes de uma linhagem de anjos, poderíamos ter avaliado o surgimento dos hominídeos, estudando seu comportamento desde as cavernas. Só desse modo teríamos autoridade pra dizer o que é ou não fato. Mas como fazê-lo? Se nós é que estávamos lá? Como dizer dos primatas, se os primatas éramos nós?

Pode ser que não diferenciemos em nada das outras espécies em nossa origem. Pode ser que sejamos filhos pródigos do macaco. Pode até ser que tenhamos um parentesco distante com as mulas. Mas pode ser também que certos aspectos, mesmo que num remoto tempo, imperceptíveis, sejam inerentes e intransferíveis à nossa raça. Como a capacidade de ter podido sempre imaginar. Imaginar o que há e o que não há.

Do mais, só quem sabe é Deus. E até Deus, ele mesmo, é uma obra aberta, que ainda não terminamos de imaginar.

por Liseu de Matedi | 4:39 PM Outras Palavras:



Quer saber porque acho que ele é um cara de sorte? Vamos caminhando que te explico. Veja bem, ele foi integrante do maior grupo de rock de todos os tempos. Podia parar por aí. Mas nesse caso, os outros membros seriam tão sortudos quanto. Mas espera, me deixa terminar. Ele era o baterista da banda. Você percebe o que é ser o baterista duma banda de rock'n roll? Amigo, acredite-me. O baterista é o cara. Pra meninas histéricas e pra imprensa em geral, o vocalista pode até se passar de importante. Mas pra quem entende de música, pra quem é capaz de enxergar a alma que vai dentro do corpo e até pra própria banda, o baterista que é o cara. Se o vocalista é o líder do grupo, o baterista é o líder do som. O baterista é um rebelde por princípio. Só o fato de tocar com braços, pernas, tudo junto num tempo que aparentemente se desencontra, cada parte pulsando uma música dentro da própria música, já demonstra autonomia. O dono das baquetas está o tempo inteiro compondo sua própria melodia, feita de notas surdas, extensões do ritmo do coração. Outra coisa extraordinária: os músicos, pra retirar som dos seus instrumentos, precisam ter jeito, acarinhar as cordas, seduzir com carícias até extrair o som. O baterista não. Com pancadas de amor na cara do tambor, ele ordena e cativa. Um tapinha não dói. E o melhor de tudo não falei ainda. Ele fica lá atrás. Vê tudo, percebe tudo. Um voyeur de luxo. O melhor camarote num show é o dele. Apesar de ser o coração da banda e o responsável em manter todas as coisas invisíveis unidas, ele não aparece. Não está na cena do crime. Não é culpado de nada. Nunca esteve lá. É igual à melodia e ao ar. Ele está na categoria das coisas que não se vêem, apenas se acreditam. E pode passar anônimo. Andar por aí pelos lugares feito a gente. Ter o melhor dos dois mundos. Discretamente, olha ali atrás, tem umas prostitutas, perto do ponto de ônibus, sentadas. Ouviu o que elas falaram quando a gente passou? Tem tudo haver com isso que estou falando! Vou explicar. A gente está aqui, agora, em plena Augusta, falando da importância desse cara! Enquanto isso, aquelas mulheres ouviram nosso papo e uma delas disse: "Quem é esse Ringo Star?".

por Liseu de Matedi | 4:39 PM Outras Palavras:



"Chuva forte, telhado é sorte."

Dora B.

por Liseu de Matedi | 4:38 PM Outras Palavras:



"Nenhum homem é uma ilha, que se basta a si mesma. Somos parte de um continente; se um simples pedaço de terra é levado pelo mar, a Europa inteira fica menor. A morte de cada ser humano me diminui, porque sou parte da humanidade. Portanto, não me perguntem por quem os sinos dobram: eles dobram por ti."

John Donne

por Liseu de Matedi | 4:36 PM Outras Palavras:



Dorme a poesia
Morre de inanição
Esquecida pela nação
Numa esquina vazia
E de boca no chão

É tanta apatia
É uma baixaria
Que não tem condição

Ninguém se entende
É tal a falta de comunicação
Que a poesia vende
Seu verso sem dente
Na mesma esquina que mataram
Outro qualquer cidadão.

por Liseu de Matedi | 4:36 PM Outras Palavras:

UM CONTO DE NATAL



- Foi mesmo um bom menino?

Padilha, obstinado, implora que sim, igual cão adestrado, igual foca querendo peixe.

- Compareceu às necessidades de sua mulher, sem deixar de com isso, desejar sua cunhada, as amigas de sua filha e qualquer uma que passasse no seu caminho?

Padilha, com ar grave de bacharel, acena que sim, inflamado de orgulho.

- Foi um chefe exemplar com seus funcionários, atrasando seus pagamentos e negando-lhes os direitos necessários? Foi um empresário arguto, passando notas frias, intercambiando transações fajutas e fraudulentas e sonegando impostos para bem do patrimônio particular?

Padilha, solene como na cerimônia de hastear bandeira, como quem ouve o próprio hino do país, só faltou bater continência de obediência.

- Contribuiu com as causas sociais e ecológicas, atirando copos e latas pela janela do carro, fechando os vidros aos meninos malabaristas no sinal, ligando o ar condicionado até pra ir ao banheiro, comprando de madeireiras clandestinas no Amazônia e aprovando desmatamentos para construção de shopping-center em reservas florestais? Fundando ONGs de fachada para lavar dinheiro público e embolsar para benefício pessoal?

Padilha, pulando frevo, soltando confetes, dedinhos pra cima (quando não se sabe sambar), como se estivesse num carnaval de Olinda, canta que sim, sim!

- Enfim, deu falsos testemunhos ideológicos, parou em fila dupla em plena hora do rush, maldisse a vida alheia, perjurou, jurou e mentiu, disse até o fim que não viu nem sabia de nada? Deixou de catar as fezes do seu cachorro na calçada? E o mais importante: furou sinal no amarelo?

Padilha, abrindo os braços como quem interpreta a derradeira ópera, cheio de comoção embargada, só consegue acenar com a cabeça, sôfrego e pleno, que sim, em paz consigo, que sim, uma vida a ser homenageada, sim.

- Bom menino. Comportou-se o ano todo. E merece seu presente. Feliz Natal. Ho ho ho.

E o bom velhinho, aliviando as costas, joga o saco inteiro na sala de Padilha. Diz a ele que depois dividisse tudo em sacolas menores, malas compactas, meias penduradas na lareira e até nas cuecas de algodão, tudo pra não levantar suspeita. Depois disso pegou suas renas e trenó e voltou voando pro pólo norte, no distrito federal.

por Liseu de Matedi | 4:36 PM Outras Palavras:
archives
links